Foto: Arquivo Pessoal/Luiz Henrique Dourado
Servidor do MPRJ concilia carreira pública e escrita literária marcada pelo desconforto, pelo absurdo cotidiano e por finais abertos
No Servidor em Foco deste mês, trazemos a experiência literária do analista processual Luiz Henrique Marques Dourado, no MPRJ desde 2014. Aos 40 anos, Luiz Henrique construiu uma obra que transita entre drama psicológico, poesia e romance contemporâneo, sempre com a proposta de inquietar o leitor.
Sua obra Este Livro Não Existe foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura em 2014, embora permaneça inédita. É autor também do drama psicológico Pinball, publicado pela Editora 8 e Meio, do livro de poesias Uma Pessoa Inédita, inspirado em sua paternidade, e do romance O Cheiro Azedo da Grama, com boa recepção em livrarias e clubes de leitura.
Como a literatura entrou na sua vida e como se deu sua carreira literária?
“Todo autor responde que já nasceu lendo e escrevendo. Eu me lembro com carinho de alguns textos: aos oito anos, montava histórias de margens tortas com viagem no tempo. Minha mãe se orgulhava, dizendo que era muito avançado para a idade. Talvez tenha sido esse elogio, e o espanto da professora da quinta série ao ler uma poesia (ela fez questão de publicar no jornalzinho da escola), que plantou a semente. Elogiem seus pequenos!”, conta.
Houve, porém, uma fase de negação, quando acreditava que literatura era chata. A literatura parecia um mundo inacessível para mim, e a timidez me afastava dele. Essa ‘névoa’ se dissipou nos meus 20 e poucos anos, e nos reencontramos como numa comédia romântica. Os suspenses policiais pavimentaram o caminho para que eu explorasse todo tipo de história antes de começar meus próprios textos.
Logo de cara, debrucei-me sobre o próprio ato da escrita com meu romance Este Livro Não Existe. Inscrevi-o no Prêmio Sesc de Literatura de 2014 e fui finalista, o que me deu a chancela para não desistir. Não publiquei esse primogênito, mas o romance que se lançou ao mundo foi Pinball, em 2021. Mesmo sem grande distribuição, o livro trouxe retorno afetivo intenso: leitores que não tinham hábito de ler, mas compraram pela amizade, relataram não conseguir parar de ler. As críticas e discussões sobre o protagonista e o final foram minha realização.
Em 2023, virei pai da Olívia e publiquei um singelo livro de poesias, Uma Pessoa Inédita, sem pretensão comercial, uma homenagem à minha filha. Depois, publiquei O Cheiro Azedo da Grama, pela Oficina Raquel, com maior circulação. O livro foi incluído em clubes de leitura, como o ‘Fora do Radar’, com 300 exemplares distribuídos logo de início, gerando novas discussões sobre a protagonista e me oferecendo grande recompensa afetiva.
Como é ter uma carreira de escritor em paralelo ao serviço público?
É um desafio. A prioridade profissional, obviamente, é o serviço público. Escrevo apenas quando consigo zerar meus processos. Agora, como pai, a escrita ocupa a terceira prioridade, então o próximo romance pode demorar um pouco para sair.
Quais os principais desafios do mercado editorial brasileiro?
O público não-leitor é maioria. O mercado é limitado pelo tamanho, pelo preço dos livros e pelo baixo incentivo público. Hoje, no entanto, há mais diversidade de vozes, inclusive via autopublicação, e pequenas e médias editoras fortalecem o cenário. Mas o autor não pode ser apenas autor: precisa também atuar como marketing, divulgar seu livro, marcar presença em eventos e redes sociais, mesmo quando a exposição cansa.
Quais temas o motivam mais a escrever? Existe uma linha comum em suas obras?
Não tenho uma linha temática, mas busco perturbar o leitor. As histórias tangenciam o absurdo sem entrar na fantasia. Os finais são abertos, permitindo múltiplas interpretações, e muitos leitores pedem mais definição, algo que a vida raramente oferece.
Quais são seus próximos projetos?
O próximo romance talvez demore. Tenho dois projetos iniciados, com algumas dezenas de páginas cada, e vamos ver qual se desenvolve primeiro. No momento, foco em fazer O Cheiro Azedo da Grama alcançar voos maiores. É um livro de estilo, mas que pode atingir o grande público: a primeira cena é intensa, e a narrativa mostra a mãe que, após perder a filha, assume sua identidade nas redes sociais, primeiro virtualmente, depois fisicamente.
Não escrevo sem buscar o ‘bom desconforto’ do leitor. A literatura tem essa magia: tocar pessoas mesmo à distância e inspirá-las a criar mundos próprios.